Caso perdido
Me perco nas palavras que procuro te dizer. Pensava até ontem que eras o tal, aquele que iria acabar com meus sonhos, com a busca cansativa sem perspectivas. Imaginei que seria feliz assim, fácil, sem trabalho, destruindo prazeres, vontades e sonhos de outros. Não me importei e acabei por fim destruindo em mim o que pensava tirar de estranhos, nem tão estranhos afinal. Agora vivo presa em uma cidade, num quarto que não é meu, nem quero que seja. Mas como abrir a porta e sair sem que todos acordem, sem que as fúrias sejam despertas, sem muito alarde. Como não destruir os planos que também construí, por medo.
Como vencer a solidão que me acompanha, tomar o rumo sozinha. Esquecida das dores que nem são minhas. Porque me importar que os cacos furem teu pé, se só assim correrei livre. Pra que te esperar, te brigar, te exigir coisas que não quero mais pra mim. Saber como sair sem ser covarde, sem desistir aos poucos do que sentes por mim. Mas és tão burro e egoísta que nem sequer percebes, ou sou eu quem não mostra, que não és o tal, estás longe de ser e nem quero tentar.
Não ouves minhas súplicas, pequenas pistas de minha insatisfação, manténs o erro mostrando assim que tu, também, já não te importas mais. Os filhos que já tem nome, a casa que já tem lugar não passam de brinquedos que podem ser quebrados e substituídos sem maiores traumas. Analogias infantis encontraram lugar de ser nesta estória, pois sou imatura, não sei quem e o que quero de ti. Não és tu o tal. És bom, amoroso, egoísta, infantil, mesquinho, agressor. Não gosto de ti, mas me tens como poucos me tiverem, quiçá nenhum, nunca.Percebe o que te digo e me salva desta vida, sou mais só contigo, me liberta para de amar, se é que me amas. Sou e és uma muleta encontrada ao acaso num momento aleijado, deformado da falta de com quem fazer.
Encontramos nossos corpos juntos sem querer e o mantivemos assim por tesão, paixão, durante o pouco tempo que isso restou. Agora o que sobra é a mágoa, a repulsa o pouco interesse em tuas coisas, o pouco caso que faço de ti. Nem devias me amar, como podes me amar. Eu deixo tudo isso tão pouco claro? Sou tão boa fingidora? Não quero ser, percebe logo que o fim já até passou e que agora as coisas estão encalhadas num quarto que não é meu, numa casa estranha, cujos móveis eu nem acho bonitos.